Dinheiro e autonomia: por que esse ainda é um desafio para muitas mulheres?

01 de fevereiro de 2026 por Vanessa Brollo

Empreender, para muitas mulheres, começa como um desejo de autonomia. Para Patrícia Baudy, fundadora da Confidence Semijoias, foi também um caminho de autoconhecimento, disciplina financeira e transformação coletiva. Sua trajetória revela que lidar bem com o dinheiro não é apenas uma questão de números, mas de postura, clareza e propósito.


Movida pela vontade de ser dona do próprio negócio e transformar a vida de outras mulheres, Patrícia enxergou nas semijoias muito mais do que acessórios. Elas se tornaram símbolos de autoestima, expressão pessoal e independência. “Eu sempre acreditei que o dinheiro seria consequência do valor que eu entregava”, afirma. Essa visão guiou cada etapa do seu crescimento.


Fundada há 14 anos, em Curitiba, a Confidence nasceu de um investimento inicial de R$ 5 mil e, hoje, alcança um faturamento anual de R$ 10,5 milhões. Desde 2014, a marca opera com um modelo de revenda por consignação, criando oportunidades para mulheres que desejam empreender, muitas vezes sem capital inicial. Mas, junto com a chance de vender, vem um desafio recorrente: aprender a se organizar financeiramente e, principalmente, aprender a cobrar. 
Dinheiro, cultura e culpa: os obstáculos invisíveis.


Patrícia observa que muitas mulheres chegam ao empreendedorismo sem noção clara do quanto ganham ou gastam. Há dificuldade em precificar, cobrar clientes e separar as finanças pessoais das empresariais. “Para aprender a vender, é preciso aprender a cobrar”, diz. No consignado, esse ponto costuma ser um gargalo e também um reflexo de barreiras culturais.
Não é raro que mulheres sem independência financeira ainda escondam gastos dos parceiros ou prefiram pagar em dinheiro. A relação com o dinheiro, muitas vezes, vem atravessada por culpa, medo e insegurança. Superar isso exige educação financeira, mas também mudança de mentalidade.


Controle, reinvestimento e visão de longo prazo


Desde o início, Patrícia adotou uma postura estratégica. Durante anos, viveu com o básico para reinvestir tudo no negócio, ciente de que o ciclo financeiro do consignado é mais longo. “O dinheiro demora para entrar em caixa. É preciso paciência e planejamento”, explica.


Hoje, as finanças da Confidence são tratadas como um pilar estratégico, sustentadas por três frentes: sustentabilidade e consistência, com foco em lucro real; segurança e planejamento, com controle de fluxo de caixa, DRE (Demostrativo Real de Lucro) e reservas financeiras; e um modelo financeiro que transforma renda em oportunidade, garantindo crescimento também para revendedoras e pontos de venda.


A análise trimestral e anual dos demonstrativos financeiros permite decisões mais conscientes e evita que o crescimento seja apenas aparente. “Faturar muito não significa ganhar bem”, reforça.


A marca curitibana vem ganhando expansão nacional, em 2025 lançou um novo formato de franquia na Feira do Empreendedor Sebrae, o Quiosque Confidence. Resultado da visão que integra rentabilidade e propósito.
Separar, organizar, fortalecer


Entre os aprendizados mais importantes da sua trajetória estão separar as contas pessoais das empresariais, definir um pró-labore com rigor e criar reservas financeiras para enfrentar imprevistos. Roubos, extravios e prejuízos fazem parte da realidade de quem empreende e o preparo emocional é tão importante quanto o financeiro.


“Empreender é se preparar para o inesperado”, diz Patrícia.

Frustração existe, mas não pode paralisar. A atitude prática diante das dificuldades é o que mantém o negócio vivo.
Investir em pessoas também é estratégia financeira.


Na Confidence, investir em gente é parte do modelo de crescimento. A empresa subsidia estudos, três graduações e uma pós-graduação, paga integralmente o plano de saúde dos colaboradores e acredita que desenvolvimento humano gera inovação. Hoje, são 48 colaboradores diretos, 32 representantes comerciais, 420 revendedoras e 4.200 pontos de venda em 14 estados brasileiros. 


“Quando você investe em quem caminha com você, o retorno vem em forma de inovação, comprometimento e impacto social”, afirma.


Cinco lições financeiras para mulheres que estão começando


A experiência de Patrícia Baudy se traduz em aprendizados valiosos para quem deseja uma relação mais saudável com o dinheiro:


1.    Separe o dinheiro pessoal do dinheiro do negócio, mesmo que ele seja pequeno.
2.    Não é sobre quanto você ganha, mas sobre como administra.
3.    Conheça seu custo de vida antes de querer ganhar mais.
4.    Nunca dependa de uma única fonte de renda.
5.    Comece a guardar dinheiro antes de sobrar.


Mais do que fórmulas prontas, essas lições apontam para um caminho de autonomia consciente. Um percurso em que o dinheiro deixa de ser tabu e passa a ser ferramenta de liberdade.


Como resume Patrícia: “Quando uma mulher vence, ela abre portas para muitas outras.”