Do agro à educação: empresário recupera colégio tradicional e aposta no legado como negócio

19 de maio de 2026 por Vanessa Brollo

Ele construiu uma das maiores empresas de recrutamento do agronegócio na América Latina e decidiu mudar de rota para investir em educação. À frente do Colégio Willy Janz, em Curitiba, o empreendedor André Ceruzi passou a aplicar conceitos de gestão corporativa em uma instituição tradicional, com foco em qualidade de ensino e formação de base.

 

A mudança aconteceu após a pandemia, período que impactou diretamente a operação da escola. Com mais de três décadas de história e origem ligada à comunidade menonita, o colégio viu o número de alunos cair de cerca de 430 para pouco mais de 230, refletindo um cenário vivido por diversas instituições privadas no país. “A pandemia foi o grande ponto de inflexão. A escola precisava se reorganizar para continuar relevante”, afirma.

 

Quando assumiu a gestão, em 2024, primeiro como presidente do conselho e depois como superintendente, Ceruzi encontrou uma operação financeiramente pressionada, com faturamento anual próximo de R$ 2,9 milhões e déficit mensal. A estratégia adotada foi profissionalizar a administração, com revisão de processos, controle de custos e reorganização das áreas.

 

Ao mesmo tempo, houve uma reformulação pedagógica. O Colégio Willy Janz passou a operar com ensino bilíngue, firmou parcerias educacionais e adotou novos materiais didáticos. Também ampliou a atuação em esporte e cultura, com programas de bolsa e incentivo ao rendimento. A proposta inclui ainda o uso de tecnologia educacional, com plataformas imersivas voltadas ao aprendizado.

 

Dois anos depois, a escola voltou ao patamar de cerca de 430 alunos no ensino regular e ampliou sua base com mais de 150 estudantes em atividades complementares. A operação passou a registrar equilíbrio financeiro, o que permitiu avançar na renegociação de passivos. Um dos marcos desse processo foi a renovação do contrato de aluguel por mais dez anos, garantindo a continuidade das atividades.

 

A experiência empresarial de Ceruzi ajudou a conduzir a transformação. Fundador da AGroSearch, empresa de recrutamento especializada no agro, construiu a companhia ao longo de dez anos sem aporte externo, alcançando reconhecimento em rankings e premiações do setor.

A saída da operação aconteceu há cerca de três anos, quando decidiu vender sua participação e migrar para uma atuação mais estratégica no setor, como conselheiro e palestrante. O movimento marcou uma transição de carreira, com redução do envolvimento direto no dia a dia do recrutamento executivo e abertura de espaço para novos projetos.

 

“Depois de estruturar a empresa e consolidar o modelo, entendi que era o momento de buscar outros desafios”, afirma.

 

Foi nesse contexto que surgiu a oportunidade de entrar na educação. A bagagem acumulada ao longo da carreira — especialmente na seleção de executivos e lideranças do agronegócio — passou a orientar a nova atuação. Segundo ele, a análise recorrente de perfis de alto desempenho evidenciou um padrão: a formação de base, ainda na infância e no ensino médio, tem impacto direto na trajetória profissional. A partir dessa leitura, a transição entre os setores deixou de ser apenas uma mudança de mercado e passou a ser um projeto estruturado de longo prazo, com foco na formação de capital humano desde as etapas iniciais.

“Os profissionais de alto desempenho que entrevistei tinham uma base muito sólida construída ainda na infância e no ensino médio. A escola pode ter um papel decisivo nesse processo”, diz.

 

Com essa premissa, o colégio passou a reforçar o desenvolvimento individual dos alunos, com foco não apenas acadêmico, mas também em competências e direcionamento profissional. A instituição prepara novas parcerias com centros de capacitação e setores como indústria e agronegócio, além de estudar a expansão da estrutura nos próximos anos.

Apesar da gestão orientada por resultados, o modelo mantém o caráter de instituto, sem distribuição de lucro e com oferta de bolsas. “É possível combinar eficiência, qualidade e propósito social. Esse é o desafio”, afirma.

Hoje, Ceruzi divide a atuação entre a escola e outros negócios, além de atividades como conselheiro e palestrante no agronegócio. A motivação, no entanto, segue clara. “Na educação, o retorno não é só financeiro. É construção de legado”, resume.